ECA Digital e uso de imagens de crianças: o que sua instituição precisa observar
Uma fotografia de uma atividade escolar, de um atendimento ou de um evento pode parecer um registro simples. Dependendo do enquadramento e das informações que acompanham a publicação, porém, ela também pode revelar dados que precisam ser protegidos.

Com a entrada em vigor do ECA Digital, o debate sobre a proteção de crianças e adolescentes na internet ganhou ainda mais importância.
Para escolas, clínicas, projetos, instituições, empresas e agentes públicos, este é um bom momento para rever a maneira como as imagens são produzidas, recebidas e publicadas.
O que é o ECA Digital
O ECA Digital é o nome pelo qual ficou conhecida a Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025.
A lei está em vigor desde 17 de março de 2026 e trata da proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.
Entre os princípios previstos estão a proteção integral, o melhor interesse, a privacidade, a segurança e a responsabilidade compartilhada entre famílias, sociedade, empresas e Poder Público.
A norma foi regulamentada pelo Decreto nº 12.880, de 18 de março de 2026. A Agência Nacional de Proteção de Dados também passou a exercer as atribuições de autoridade administrativa do ECA Digital.
Embora a legislação tenha como foco os produtos e serviços digitais, ela reforça uma discussão importante para quem produz conteúdo: como proteger crianças e adolescentes quando suas imagens e informações circulam na internet.
O uso de fotografias e vídeos também deve considerar o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Geral de Proteção de Dados e as regras que protegem a imagem, a identidade, a privacidade e a dignidade.
O ECA Digital proibiu fotos de crianças?
Não.
O ECA Digital não criou uma proibição geral à publicação de fotografias de crianças e adolescentes.
O que ele faz é reforçar deveres de proteção, prevenção de riscos, privacidade, segurança e respeito ao melhor interesse de quem ainda está em desenvolvimento.
Por isso, não é correto tratar toda fotografia como irregular. Também não é adequado imaginar que qualquer imagem está liberada quando existe uma autorização assinada.
Cada publicação precisa ser analisada de acordo com sua finalidade, seu contexto, seu alcance e os riscos envolvidos.
A autorização resolve tudo?
A autorização dos responsáveis é uma parte importante do processo, principalmente em usos institucionais, publicitários e comerciais.
Ela, porém, não deve ser o único critério.
- expõe a criança de maneira desnecessária
- mostra uma situação constrangedora
- revela informações pessoais
- permite identificar uma rotina ou localização
- associa seu rosto a um diagnóstico
- apresenta uma condição de saúde
- utiliza sofrimento como apelo
- pode prejudicá-la no presente ou no futuro
A pergunta não deve ser apenas “temos autorização?”.
Também é preciso perguntar se aquela publicação é realmente adequada.
Uma imagem pode revelar mais do que o rosto
Em muitos casos, a exposição acontece nos detalhes.
Um uniforme pode identificar a escola. Um mural pode mostrar nomes completos. Um crachá pode revelar dados pessoais. A localização publicada em tempo real pode indicar onde a criança está. Uma ficha sobre a mesa pode apresentar informações de saúde.
Antes de fotografar ou publicar, é importante observar:
- o que aparece no fundo
- se existem documentos visíveis
- se o nome completo está sendo divulgado
- se o uniforme identifica a instituição
- se a legenda informa a rotina
- se existe localização em tempo real
- se aparecem dados médicos
- se a imagem mostra placas, endereços ou veículos
- se o conteúdo revela uma informação familiar
Nem sempre é necessário deixar de registrar a atividade.
Muitas vezes, basta escolher outro enquadramento.
Uma fotografia das mãos durante uma oficina, dos materiais utilizados ou de um plano mais aberto pode comunicar o trabalho realizado sem identificar individualmente as crianças.
Situações que exigem atenção maior
Alguns conteúdos precisam de cuidado redobrado.
Entre eles estão imagens de crianças:
- chorando
- em situação de crise
- recebendo atendimento
- participando de procedimentos médicos ou terapêuticos
- em situação de vulnerabilidade social
- com pouca roupa
- acompanhadas de diagnóstico
- relatando problemas familiares
- participando de depoimentos comerciais
- sendo utilizadas como representação de apoio institucional
Uma intenção positiva não elimina os riscos da exposição.
Uma clínica pode querer mostrar o resultado de um trabalho. Um projeto pode desejar apresentar a realidade que atende. Uma instituição pública pode querer prestar contas de uma ação.
Ainda assim, é possível comunicar sem revelar tudo sobre a criança.
Saúde, deficiência e atendimento especializado
Imagens produzidas em clínicas, hospitais, consultórios e instituições especializadas merecem atenção ainda maior.
Uma fotografia pode revelar, direta ou indiretamente:
- um diagnóstico
- uma deficiência
- um tratamento
- um medicamento
- um profissional responsável
- um histórico de atendimento
- uma situação de crise
- uma informação familiar
É possível falar sobre o serviço sem apresentar o prontuário, o diagnóstico ou a história completa da criança.
Fotografias dos materiais utilizados, do ambiente preparado ou da equipe podem comunicar o trabalho de forma mais segura.
A criança não deve ser apresentada somente por sua deficiência, por sua condição de saúde ou pelas dificuldades que enfrenta.
Publicação e anúncio não são a mesma coisa
Outro ponto importante é a finalidade da imagem.
Uma autorização para publicar uma fotografia no perfil de uma escola não significa, automaticamente, que a mesma imagem possa ser utilizada em:
- anúncio patrocinado
- outdoor
- painel de LED
- campanha comercial
- material de matrícula
- apresentação de vendas
- peça produzida com parceiros
- publicação feita por outra empresa
O impulsionamento amplia o alcance do conteúdo e faz com que a imagem seja apresentada a pessoas que não acompanham normalmente aquela instituição.
Quando a finalidade muda, a autorização também precisa ser revista.
Eventos com crianças
Em eventos, é recomendável informar previamente que haverá captação de imagens.
Também é importante:
- permitir que os responsáveis manifestem recusa
- identificar quem não pode aparecer
- orientar fotógrafos e cinegrafistas
- priorizar imagens gerais
- evitar closes sem necessidade
- solicitar autorização específica para entrevistas
- não incentivar a divulgação de informações pessoais
Uma placa informando que o evento está sendo filmado ajuda a comunicar a captação.
Ela não deve ser tratada, porém, como autorização irrestrita para qualquer uso posterior.
Entrevistas, depoimentos, closes e campanhas publicitárias exigem uma verificação mais cuidadosa.
E quando a imagem chega por WhatsApp?
O fato de uma fotografia ter sido enviada para uma instituição não significa que ela esteja autorizada para publicação.
Antes de encaminhar o material para a equipe de comunicação ou para uma agência, é preciso confirmar:
- quem produziu a imagem
- se o responsável autorizou seu uso
- em quais canais ela pode ser publicada
- se a autorização inclui anúncios
- se existe alguma restrição
- se a imagem foi retirada de outro perfil
O mesmo vale para prints, fotografias retiradas de grupos e conteúdos publicados por outras pessoas.
Receber um arquivo não transfere automaticamente o direito de utilizá-lo.
Uso de inteligência artificial
O uso de imagens de crianças em ferramentas de inteligência artificial também exige cuidado.
Uma fotografia não deve ser enviada a qualquer plataforma sem que a instituição compreenda como o arquivo será armazenado e utilizado.
Também devem ser avaliadas situações como:
- alteração do rosto
- mudança de corpo
- troca de cenário
- criação de novas imagens baseadas em uma criança real
- clonagem de voz
- simulação de falas
- criação de depoimentos
- transformação da criança em personagem
- uso da imagem como referência para novas produções
A inteligência artificial não deve criar situações que nunca aconteceram nem atribuir à criança uma fala ou um comportamento inexistente.
Antes de publicar
Uma verificação simples pode evitar muitos problemas.
Pergunte:
- Sabemos de onde veio essa imagem?
- Existe autorização adequada?
- A criança estava confortável com o registro?
- Há alguma informação pessoal visível?
- A legenda revela algo que não deveria?
- A localização precisa aparecer?
- A imagem mostra uma situação de fragilidade?
- O conteúdo continuaria respeitoso fora do contexto original?
- A autorização contempla anúncio ou impulsionamento?
- Existe uma forma de comunicar com menos exposição?
Quando houver dúvida, a melhor decisão é verificar antes de publicar.
Um guia para ajudar nessa rotina
A Plante preparou o Guia de uso responsável de imagens de crianças e adolescentes.
O material foi desenvolvido para escolas, clínicas, projetos, instituições, empresas, agentes públicos e profissionais de comunicação.
O guia reúne orientações sobre:
- autorização de imagem
- fotografias e vídeos em eventos
- dados pessoais
- localização
- saúde e deficiência
- anúncios
- comunicação pública
- inteligência artificial
- responsabilidades da instituição
- checklist antes da publicação
O objetivo não é impedir registros.
É ajudar instituições e equipes de comunicação a fazer escolhas melhores.
Este conteúdo possui caráter orientativo e não substitui a análise jurídica de situações específicas.
Fontes e referências
- Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025
- Lei nº 15.352, de 25 de fevereiro de 2026
- Decreto nº 12.880, de 18 de março de 2026
- Decreto nº 12.622, de 17 de setembro de 2025
- Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, Estatuto da Criança e do Adolescente
- Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018, Lei Geral de Proteção de Dados
- Materiais oficiais da Agência Nacional de Proteção de Dados
