Comunicação e responsabilidade

ECA Digital e uso de imagens de crianças: o que sua instituição precisa observar

Uma fotografia de uma atividade escolar, de um atendimento ou de um evento pode parecer um registro simples. Dependendo do enquadramento e das informações que acompanham a publicação, porém, ela também pode revelar dados que precisam ser protegidos.

Publicado em 13 julho 2026Atualizado em 13 julho 2026Por Plante8 min de leitura

Com a entrada em vigor do ECA Digital, o debate sobre a proteção de crianças e adolescentes na internet ganhou ainda mais importância.

Para escolas, clínicas, projetos, instituições, empresas e agentes públicos, este é um bom momento para rever a maneira como as imagens são produzidas, recebidas e publicadas.

O que é o ECA Digital

O ECA Digital é o nome pelo qual ficou conhecida a Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025.

A lei está em vigor desde 17 de março de 2026 e trata da proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

Entre os princípios previstos estão a proteção integral, o melhor interesse, a privacidade, a segurança e a responsabilidade compartilhada entre famílias, sociedade, empresas e Poder Público.

A norma foi regulamentada pelo Decreto nº 12.880, de 18 de março de 2026. A Agência Nacional de Proteção de Dados também passou a exercer as atribuições de autoridade administrativa do ECA Digital.

Embora a legislação tenha como foco os produtos e serviços digitais, ela reforça uma discussão importante para quem produz conteúdo: como proteger crianças e adolescentes quando suas imagens e informações circulam na internet.

O uso de fotografias e vídeos também deve considerar o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Geral de Proteção de Dados e as regras que protegem a imagem, a identidade, a privacidade e a dignidade.

O ECA Digital proibiu fotos de crianças?

Não.

O ECA Digital não criou uma proibição geral à publicação de fotografias de crianças e adolescentes.

O que ele faz é reforçar deveres de proteção, prevenção de riscos, privacidade, segurança e respeito ao melhor interesse de quem ainda está em desenvolvimento.

Por isso, não é correto tratar toda fotografia como irregular. Também não é adequado imaginar que qualquer imagem está liberada quando existe uma autorização assinada.

Cada publicação precisa ser analisada de acordo com sua finalidade, seu contexto, seu alcance e os riscos envolvidos.

A autorização resolve tudo?

A autorização dos responsáveis é uma parte importante do processo, principalmente em usos institucionais, publicitários e comerciais.

Ela, porém, não deve ser o único critério.

  • expõe a criança de maneira desnecessária
  • mostra uma situação constrangedora
  • revela informações pessoais
  • permite identificar uma rotina ou localização
  • associa seu rosto a um diagnóstico
  • apresenta uma condição de saúde
  • utiliza sofrimento como apelo
  • pode prejudicá-la no presente ou no futuro

A pergunta não deve ser apenas “temos autorização?”.

Também é preciso perguntar se aquela publicação é realmente adequada.

Uma imagem pode revelar mais do que o rosto

Em muitos casos, a exposição acontece nos detalhes.

Um uniforme pode identificar a escola. Um mural pode mostrar nomes completos. Um crachá pode revelar dados pessoais. A localização publicada em tempo real pode indicar onde a criança está. Uma ficha sobre a mesa pode apresentar informações de saúde.

Antes de fotografar ou publicar, é importante observar:

  • o que aparece no fundo
  • se existem documentos visíveis
  • se o nome completo está sendo divulgado
  • se o uniforme identifica a instituição
  • se a legenda informa a rotina
  • se existe localização em tempo real
  • se aparecem dados médicos
  • se a imagem mostra placas, endereços ou veículos
  • se o conteúdo revela uma informação familiar

Nem sempre é necessário deixar de registrar a atividade.

Muitas vezes, basta escolher outro enquadramento.

Uma fotografia das mãos durante uma oficina, dos materiais utilizados ou de um plano mais aberto pode comunicar o trabalho realizado sem identificar individualmente as crianças.

Situações que exigem atenção maior

Alguns conteúdos precisam de cuidado redobrado.

Entre eles estão imagens de crianças:

  • chorando
  • em situação de crise
  • recebendo atendimento
  • participando de procedimentos médicos ou terapêuticos
  • em situação de vulnerabilidade social
  • com pouca roupa
  • acompanhadas de diagnóstico
  • relatando problemas familiares
  • participando de depoimentos comerciais
  • sendo utilizadas como representação de apoio institucional

Uma intenção positiva não elimina os riscos da exposição.

Uma clínica pode querer mostrar o resultado de um trabalho. Um projeto pode desejar apresentar a realidade que atende. Uma instituição pública pode querer prestar contas de uma ação.

Ainda assim, é possível comunicar sem revelar tudo sobre a criança.

Saúde, deficiência e atendimento especializado

Imagens produzidas em clínicas, hospitais, consultórios e instituições especializadas merecem atenção ainda maior.

Uma fotografia pode revelar, direta ou indiretamente:

  • um diagnóstico
  • uma deficiência
  • um tratamento
  • um medicamento
  • um profissional responsável
  • um histórico de atendimento
  • uma situação de crise
  • uma informação familiar

É possível falar sobre o serviço sem apresentar o prontuário, o diagnóstico ou a história completa da criança.

Fotografias dos materiais utilizados, do ambiente preparado ou da equipe podem comunicar o trabalho de forma mais segura.

A criança não deve ser apresentada somente por sua deficiência, por sua condição de saúde ou pelas dificuldades que enfrenta.

Publicação e anúncio não são a mesma coisa

Outro ponto importante é a finalidade da imagem.

Uma autorização para publicar uma fotografia no perfil de uma escola não significa, automaticamente, que a mesma imagem possa ser utilizada em:

  • anúncio patrocinado
  • outdoor
  • painel de LED
  • campanha comercial
  • material de matrícula
  • apresentação de vendas
  • peça produzida com parceiros
  • publicação feita por outra empresa

O impulsionamento amplia o alcance do conteúdo e faz com que a imagem seja apresentada a pessoas que não acompanham normalmente aquela instituição.

Quando a finalidade muda, a autorização também precisa ser revista.

Eventos com crianças

Em eventos, é recomendável informar previamente que haverá captação de imagens.

Também é importante:

  • permitir que os responsáveis manifestem recusa
  • identificar quem não pode aparecer
  • orientar fotógrafos e cinegrafistas
  • priorizar imagens gerais
  • evitar closes sem necessidade
  • solicitar autorização específica para entrevistas
  • não incentivar a divulgação de informações pessoais

Uma placa informando que o evento está sendo filmado ajuda a comunicar a captação.

Ela não deve ser tratada, porém, como autorização irrestrita para qualquer uso posterior.

Entrevistas, depoimentos, closes e campanhas publicitárias exigem uma verificação mais cuidadosa.

E quando a imagem chega por WhatsApp?

O fato de uma fotografia ter sido enviada para uma instituição não significa que ela esteja autorizada para publicação.

Antes de encaminhar o material para a equipe de comunicação ou para uma agência, é preciso confirmar:

  • quem produziu a imagem
  • se o responsável autorizou seu uso
  • em quais canais ela pode ser publicada
  • se a autorização inclui anúncios
  • se existe alguma restrição
  • se a imagem foi retirada de outro perfil

O mesmo vale para prints, fotografias retiradas de grupos e conteúdos publicados por outras pessoas.

Receber um arquivo não transfere automaticamente o direito de utilizá-lo.

Uso de inteligência artificial

O uso de imagens de crianças em ferramentas de inteligência artificial também exige cuidado.

Uma fotografia não deve ser enviada a qualquer plataforma sem que a instituição compreenda como o arquivo será armazenado e utilizado.

Também devem ser avaliadas situações como:

  • alteração do rosto
  • mudança de corpo
  • troca de cenário
  • criação de novas imagens baseadas em uma criança real
  • clonagem de voz
  • simulação de falas
  • criação de depoimentos
  • transformação da criança em personagem
  • uso da imagem como referência para novas produções

A inteligência artificial não deve criar situações que nunca aconteceram nem atribuir à criança uma fala ou um comportamento inexistente.

Antes de publicar

Uma verificação simples pode evitar muitos problemas.

Pergunte:

  1. Sabemos de onde veio essa imagem?
  2. Existe autorização adequada?
  3. A criança estava confortável com o registro?
  4. Há alguma informação pessoal visível?
  5. A legenda revela algo que não deveria?
  6. A localização precisa aparecer?
  7. A imagem mostra uma situação de fragilidade?
  8. O conteúdo continuaria respeitoso fora do contexto original?
  9. A autorização contempla anúncio ou impulsionamento?
  10. Existe uma forma de comunicar com menos exposição?

Quando houver dúvida, a melhor decisão é verificar antes de publicar.

Um guia para ajudar nessa rotina

A Plante preparou o Guia de uso responsável de imagens de crianças e adolescentes.

O material foi desenvolvido para escolas, clínicas, projetos, instituições, empresas, agentes públicos e profissionais de comunicação.

O guia reúne orientações sobre:

  • autorização de imagem
  • fotografias e vídeos em eventos
  • dados pessoais
  • localização
  • saúde e deficiência
  • anúncios
  • comunicação pública
  • inteligência artificial
  • responsabilidades da instituição
  • checklist antes da publicação

O objetivo não é impedir registros.

É ajudar instituições e equipes de comunicação a fazer escolhas melhores.

Este conteúdo possui caráter orientativo e não substitui a análise jurídica de situações específicas.

Fontes e referências

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